Sim, Pep tem certa influência sobre mim

Escrevo porque hoje se encerra o ciclo de Pep no Manchester City, muito provavelmente o último clube que dirigiu, já que seu próximo passo deve ser em uma seleção. Foram 10 anos e 20 troféus, mas o que menos importa, e o que menos define Pep, são os números.

O que verdadeiramente disserta sobre Pep é a transcendência do que ele representa para além do campo. Talvez por isso, por onde passou, tenha reconstruído, modificado e evoluído. Essas são palavras que descrevem suas passagens pelos clubes que orquestrou.

No FC Barcelona, reconstruiu as rachaduras futebolísticas e identitárias da equipe catalã. No Bayern Munich, modificou a cultura e a forma de jogar de uma entidade profundamente agarrada à sua própria fórmula de existir. E, por fim, no Manchester City, evoluiu o clube para um nível jamais visto no cenário nacional e internacional.

Pep fez isso, possivelmente, não apenas por fazer seus times jogarem de maneira explicitamente identificável, mas por carregar uma paixão, compaixão e princípios tão fortes que transbordam para além do mundo em que ele orbita.

Então, Pep me influencia por essas razões: fez-me enxergar o jogo que amo de uma forma diferente, dentro e fora de campo, e entender que o futebol é bola e arte, mas não só isso; é também cultura e identidade, embora não se esgote nisso.

Pep envia recados para fora do universo em que gira, mostrando que o esporte bretão não é o ópio do povo. Pelo contrário: ele revoluciona os lugares por onde passa para que os gols transcendam os aplausos boquiabertos diante da obra recém-acabada.

Até Quando, Brasil?!

Capa da revista Placar depois da eliminação da Seleção Brasileira na Copa do Mundo de 1982

Ontem, 18/05/2026, o técnico Carlo Ancelotti convocou os 26 jogadores que irão representar o futebol brasileiro na Copa do Mundo de 2026, disputada pela primeira vez em três países do continente norte-americano; Canadá, México e Estados Unidos. A convocação da Seleção Brasileira sempre foi marcada por discordâncias e pitacos vindos de todos lados, mas dessa vez prometia ser ainda mais intensa, independentemente de seu desfecho.

O Museu do Amanhã, palco da convocação, situado na Praça Mauá, na Zona Portuária do Rio de Janeiro, estava enfeitado e caracterizado com a tentativa de retratar o que é o Brasil, mas sem sua brasilidade, e com um conglomerado de pessoas que ecoavam, não pela Seleção, mas por um jogador.

O que deveria ser uma tentativa de retomar a ferida imagem da Seleção e do futebol brasileiro, acabou por não expressar algo que parecia ser o começo do que nem começou, mas o final de algo que pode nem chegar, tinha ares de final de copa do mundo, mas com um foco deturpado e implicitamente direcionado ao objetivo de um indivíduo; Neymar Jr e sua convocação para Copa do Mundo.

Alguns assuntos poderiam ser a pauta dessa convocação, por exemplo, o maior número de repetentes em Copas do Mundo da história da Seleção Brasileira, 15 dos 26 convocados já disputaram o torneio anteriormente, superando a Copa de 1962 (ano do bicampeonato), que contou com 14 remanescentes, embora naquela época fossem apenas 22 convocados. O assunto também poderia ser o maior número de jogadores atuando no futebol brasileiro convocados para uma Copa do Mundo desde o pentacampeonato de 2002. Ou ainda, o tema que mais me agrada; a ausência de um organizador, pensador e observador dos caminhos do jogo no meio-campo da Seleção, algo que fará falta na Copa do Mundo.

Porém, a meta do assunto desejado por muitos foi atingida com sucesso. Quem duvidava de que Carlo Ancelotti cederia à pressão de uma Seleção Brasileira que muitos querem deixar para trás, se enganou. Neymar foi convocado, e talvez jogará na Copa do Mundo, isso porque o jogador, ainda tratado por muitos como um menino, vive sempre uma incógnita sobre sua performance, se estará 100% fisicamente, se tecnicamente poderá atingir o que muitos acham que ele poderia ser, mas nunca foi, enfim, esse dilema é o emblema da carreira de Neymar; um eterno, “mas e se?”.

Caro leitor, que fique entre nós, em termos de “jogo jogado”, Neymar deveria ter sido deixado de lado, e essa discussão nem deveria ter sido iniciada usando como parâmetro os últimos anos da carreira do jogador.

Mas de fato, o que permanece desse dia é uma grande melancolia. Um sentimento que talvez explique o afastamento dos brasileiros em relação à Seleção que deveria representá-los, mas que de Brasilidade ela não se toma, muito menos transborda. Assim, se em 1982 a revista Placar utilizou a expressão “Que Pena Brasil” em sua capa (Ilustração do texto) para simbolizar o término da campanha daquela Seleção Brasileira dirigida por Telê e que a camisa amarela se abraçava com Sócrates, Zico, Falcão, Junior e outros que exalavam brasilidade, hoje, 19/05/2026, a capa dos jornais e revista deveriam ser, “Até Quando, Brasil ?!”

Uma frase que simboliza o possível fim daquilo que sequer começou, porque ainda esperamos uma Seleção capaz de despertar novamente o verdadeiro sentimento de brasilidade e o desejo de reviver a catarse familiar em jogos da Seleção Brasileira. Ah! E, claro, o belo futebol, ausente há muito tempo, mas que em 1982 parecia algo natural.

Os Negacionistas Carregam Mais de Um Maracanã de Cruzes no Colo

O Brasil, país em que alcançou a marca de mais de 100 (CEM) mil óbitos por COVID-19, sem contar as subnotificações, vive uma “boemia” pandêmica na base do marketing barato chamado “novo normal”. Para se ter um pouco de noção deste numero, demonstraremos para você o tamanho do maior estádio de futebol do Brasil, o mítico Maracaña, ele possui uma capacidade de mais de 78 (setenta e oito) mil espectadores, pois bem, ele não é mais capaz de comportar todos os mortos pelo COVID-19 na terra que ganhou a medalha de honra ao mérito da segunda pior administração pandêmica do mundo, mas que está na “luta” pela primeira colocação.

Citamos o estádio brasileiro anteriormente, porque mesmo com a alta taxa de mortalidade diária, o país deu inicio ao seu campeonato nacional. E como nós sempre, gostamos de explicitar, o futebol imita a sociedade em que vive, e claro que tivemos casos positivos de COVID-19 e jogos cancelados por esse motivo, de forma correta, mas apenas em um país com tamanho percentual de negacionistas pandêmicos e científicos, pensaria-se que dar inicio a um campeonato nacional em um país de extensão continental, poderia ocorrer de forma segura e tranquila.

Mas será que existe culpados por tudo o que está acontecendo? Para tentar responder esta pergunta vamos explicar o significado de negacionista. Negacionista é, “que ou quem nega ou não reconhece como verdadeiro um fato ou um conceito que pode ser verificado empiricamente”. Desta forma, aqueles que acreditam que o vírus não passa de uma gripezinha, que o isolamento social não serve para nada, que um medicamente não comprovado cientificamente resolveria os efeitos colaterais deste vírus e que um isso tudo não passa de um acontecimento político, são considerados negacionistas pandêmicos.

No Brasil, essa característica se transformou em estilo de vida, negam a pandemia, negam o isolamento social, fazem o que apetece, não importando se para isso tenha que se aglomerar, vão à praia, vão ao bar, a máscara usam se combinar com a roupa, afinal é apenas um “acessório” e algo que se faz obrigatória para poder nos lugaras, mas apenas para entrar, e assim levam o “lifestyle” de “boêmio pandêmico”.

Para os em titulados com este termo, pouco adiantaria ter os melhores hospitais ou o melhor e mais abrangente sistema de saúde do mundo, porque nada disso está acontecendo, não é necessário fazer nada, a vida tem que continuar, mesmo que alguns morram e que sem CPF não exista CNPJ, e daí? “Eu não sou coveiro”.

Pois bem, se você se considera um negacionista, e geralmente esse sentimento vem com um adicional de orgulho, reflita esta culpa que cai também sobre o seu colo.

“Inumeráveis”, poema de Bráulio Bessa e canção de Chico Cesar. Música para muitos e necessária a todos.

10 Anos da Estrela Espanhola

Em 2010, nos meses de junho e julho aconteceu a primeira copa do mundo de futebol no continente africano, mas precisamente na Africa do Sul, o país do grande líder Nelson Mandela. A terra do rúgbi, esporte que deu origem ao futebol e que é jogado com uma bola oval, se renderia por 30 dias ao jogo da bola redonda que neste mundial teria o nome de Jabulani e o mundo conheceria e ficaria familiarizado ao som das vuvuzelas.

Como em toda copa de mundo, existiam as grandes equipes cotadas para levantar a taça, Brasil, Alemanha, Itália (última campeão naquele momento), praticamente as mesmas de sempre, que mesmo não tendo um grande grupo ou não estando em bom momento são colocadas como favoritas pela tal força da camisa. Mas neste mundial existia algo diferente, uma seleção que parecia dar aos fãs do esporte uma memoria de grandes conjuntos nacionais que jogavam um futebol brilhante, como o Brasil de 58, 70 e 82 e a Holanda de 1974, essas duas ultimas seleções com um resultados frustrante para quem gosta de futebol jogado com bola deslizando no gramado, porém mesmo assim, temos uma lembrança maior delas do que das campeãs dos respectivos mundiais.

“La Roja” (apelido da seleção espanhola de futebol) nome que ficou no lugar de “La Furia”, porque o futebol com muita garra e pouco técnica havia sido trocado pelo futebol de jogadores muito técnicos, com troca de passes envolventes e que faziam até mesmo os torcedores contrários ficarem de boa aberta, aterrizou na Africa do Sul com uma equipe que tinha em sua maioria jogadores do Futbol Club Barcelona, Iniesta, Xavi, Busquets, Pique, Puyol, Pedro, time que jogava um futebol encantador e claro, isso ditava o ritmo da seleção espanhola.

Apesar de todos os fatores mencionados acima, a seleção espanhola era uma favorita que se falava em voz baixa, pois se tinha medo que na hora dos mata-mata acabaria eliminada, não tinha a tal “camisa pesada”. O começo parecia que os pessimistas tinham razão, um primeiro jogo na fase de grupos contra a Suíça, em que “La Roja” fez um bom jogo, criou oportunidades, Xabi Alonso quase arrancou o travessão suíço com um “pataço”, mas em um dos pouquíssimos ataques a Suíça marcou e venceu. Claro que as vozes pessimistas ganharam força. Mas nos dois jogos seguintes, duas vitorias, Villa Maravilha deixou seus gols com a comemoração de toureiro marcante e a Espanha estava nos mata-mata.

Nas oitavas passou por Portugal, nas quartas pelo Paraguai e chegou pela primeira vez em uma semi final de copa do mundo, a partir de então muitos começaram a acreditar que seria possível o sonhado, jogar bem e vencer que responde uma pergunta irresponsável: O que é melhor jogar bem ou vencer? Óbvio que é fazer o que Espanha fez. Voltando a semi final, a partida foi contra a Alemanha, que havia vencido por 4 a 0 a Argentina de Lionel Messi e do então treinador Maradona, mas resolveu ser cautelosa contra a Espanha e preferiu ficar em uma zona confortável, não pressionar “La Roja” muito encima. Então, a seleção espanhola fez sua melhor apresentação no mundial, com seus movimentos de ataques bem coordenados e os espaços criados em seus sutis deslocamentos, venceu a partida e foi para a grande final contra Holanda.

A final foi disputada no dia 11 de julho, o palco da final foi o Soccer City em Joannesburg, e como é de costume o mundo inteiro parou para assistir a partida, até porque nenhuma das seleções haviam sido campeãs do mundo anteriormente. O estilo de jogo das duas equipes foram antagonistas, Espanha jogou o futebol com a bola beijando o gramado e agradecendo como era tratada. Já os holandeses preferiram um futebol bruto e violento, com bolas tentando alcançar seu principal atacante Arjen Robben, para suas conhecidas corridas, com certeza uma decepção para o professor Johan Cruyff e uma alegria para seu aluno Pep Guardiola. O jogo foi amarrado pelos holandeses, faltas muito violentas, a primeira com um minuto de jogo, depois de De Jong dar uma voadeira no peito de Xabi Alonso. Contudo, mesmo assim a Espanha continuava jogando futebol e não ficou intimidada.

O jogo foi arrastado para a prorrogação e apenas nessa parte a seleção laranja teria um jogador expulso, porém isso é apenas um parenteses, o principal acontecimento da “prórroga” estava por vir e “empezó” com 115 minutos e 30 segundos. Puyol inicia a jogada na área defendida pela Espanha, a bola vai deslizando pelos pés de Jesus Navas, passa para ser acariciada pelo calcanhar de Andrés Iniesta, passada rápida ao pés de Fabregas e Navas, até chegar para Fernando Torres que tem seu passe interceptado, mas como para Jabulani era mais agradável estar em posse espanhola, ela volta a Cesc Fabregas que a abraça e passa para o seu fiel companheiro, Iniesta de mi vida, beija-la com o pé direito colocando-a para dormir na rede. Neste momento não se ouvia mais as vuvuzelas, e a seleção espanhola fazia então algo que Jonathan Wilson em seu livro A Piramide Invertida disse ser algo raro, uma equipe fora do comum ganhar a copa do mundo. “A Espanha é uma grande exceção” e teve seu grito de libertação.

Por fim, faço um relato pessoal, para mim a comemoração deste gol de Iniesta com mi papá foi inesquecível, algo que transcende o sentimento do real e que se funde com a percepção de um toque de sensibilidade de quem ja esteve aqui, e certo que está e continuará. Também foi a primeira copa que assisti com a minha esposa, que na época ainda era minha namorada.

¡Muchas Gracias Espanã y La Roja!

Partida do Final de Semana: Messi Volta a Esculpir suas Obras

Messi arremata para fazer o 4 a 0. Fonte da Imagem – ATP

O Futebol espetáculo voltou a ter seu principal objeto rolando em gramados espanhóis neste “final de semana”, coloco entre aspas porque o regresso aconteceu na quinta-feira (11/06/2020) com o “El Gran Derbi” título dado ao clássico da Andaluzia em Sevilha, que é disputado entre Real Betis e Sevilha. Dado ao fator emocional muito me apeteceria escrever sobre este confronto, porém a falta de público (devido a pandemia) mostrou que as vezes os ditos coadjuvantes podem ser atores principais em se tratando de clássico, assim como não poderia ceifar a emoção do leitor e da leitora sobre o retorno do maior artesão do futebol atual, que com ajuda daqueles que facilitam suas inspirações para a construção de suas obras de artes, porque claro, estamos falando de um esporte coletivo, fizeram da partida entre Mallorca x Barcelona representar o verdadeiro regresso do futebol.

O palco chamado Iberostar em Palma de Mallorca, tinha os telespectadores eletrônicos, transformando um ambiente tão quente quanto é um estádio de futebol, parecer ser um algoz de emoções. Caberia há algum daqueles que teriam a pelota nos pés, tentar quebrar o gelo e dar uma espécie de emoção as pessoas que a quilômetros de distância assistiam à partida pela TV.

Um minuto e quarto segundos foi o tempo necessário para a equipe catalã fazer a bola ultrapassar a linha de gol, apenas os jogadores visitantes tocaram o principal instrumento futebolisto até aquele momento. Este começo deu um indicativo que teríamos cenas que encheriam nosso olhos e fariam nossa boca ficar aberta, até porque Messi, atento a todos os detalhes estava em campo e com seus movimentos característicos.

Além do argentino, Take Kubo nascido do lado oposto do mundo a Lionel nos deixava aliviado por demonstrar quanto ao futuro do futebol, as corridas com a bola colada ao pé, a tentativa as vezes solitária de tentar desestabilizar o adversário mostrando personalidade com a “pelota” fazia com que o jogo se mantivesse sempre vivo.

Mas voltamos a falar de Messi, o nome da partida deu assistência de cabeça no segundo gol que aconteceu em um período habitual do Barça nesta temporada, os últimos 15 minutos do primeiro tempo. Para o terceiro tento, “La Pulga” teria algo especial, depois de uma troca de passes lembrando um Barça mágico de outrora, Messi antecipa como de costume a todos e antevê o que pode acontecer olhando para Jordi Alba, antes da bola alcançá-lo, quando ela chega no seu pé esquerdo, da um toque por cima dos adversários sem olhar para a direção que ele desejaria que a “pelota” fosse, uma assistência que será mais lembrada que o próprio destino da bola depois de Alba fazer o gol.

Para o final, o artista sempre tem algo guardado. Lionel já havia usado a testa para o segundo gol e a perna esquerda para o terceiro, e então usaria a direita para terminar sua obra, porque o toque final de uma grande escultura tem que vir de seu grande artista, aliás obra que contou com bolas passando pelo meio das pernas e também por cima do adversário, espetáculo que não apenas nos deixou emocionados e sorridentes em meio a tudo que está acontecendo nos últimos meses, mas também boquiabertos e com vontade de jogar futebol, porque tudo pareceu fácil.

Ficha Técnica;

Real Club Deportivo Mallorca 0 x 4 Futbol Club Barcelona – Estadio Iberostar, Palma de Mallorca, Espanha. Gols Barcelona – 1:04 – Arturo Vidal, 37 – Martin Braithwaite, 79 – Jordi Alan, 90+3 Lionel Messi

Titulares Mallorca – 1. Manolo Reina; 7. Pozo, 21. Antonio Raíllo, 24. Martin Valjent, 2. Joan Sastre (46); 8. Salva Sevilla (84), 14. Dani Rodríguez, 26. Takefusa Kubo, 6. Marc Pedraza (57); 22. Ante Budimir (85), Cucho Henández (46). Reservas – 15. Fran Gámez (46), 11. Lago Junior (46), 12. Iddris Baba (57), 16 Yannis Salibur (84), 9. Abdón Prats (85). Técnico – Vicente Moreno

Titulares Barcelona – 1, Ter Stegen; 20, Sergi Roberto (71), 3 Pique, 33. Ronald Araújo, 18. Jordi Alba; 5. Sergio Busquets (71), 21 Frenkie De Jong (84), 22. Arturo Vidal (46), 19. Martin Braithwaite, 10. Lionel Messi (C), 17. Antoine Griezmann (57). Reversas – 4. Ivan Rakitic (46), 9. Luis Suárez (57), 2 Nélson Semedo (71), 8. Arthur (71), 24. Júnior Firpo (84). Técnico – Quique Setién

Democracia No Time do Povo e sua Transcendência as 4 Linhas (1982 a 1984)

Em 1889, depois de 300 anos de colonização e exploração o Brasil viraria uma República. Muito próximo disso, em 1895 o país seria apresentado a um esporte vindo da Europa, o Futebol. Desde então o país estava exposto a mistura de política e futebol. Depois da segunda guerra mundial (1939 a 1945), mais precisamente em 1 de abril de 1964 a democracia brasileira deu uma adormecida, iniciava nesse dia o Regime Militar no país que teria seu fim apenas em 1985. Mas o pior estava por vir, em 13 de dezembro de 1968 no governo do General Artur da Costa e Silva foi decretado o Ato Institucional nº 5 (AI-5), e a partir de então o estado democrático entrou em coma, dando inicio ao período mais sombrio e violento do regime ditatorial vivido no Brasil.

Nesse mesmo momento, em São Paulo, existia um clube que passava por um processo político muito parecido com o do país. O Sport Club Corinthians Paulista, conhecido como Time do Povo, de democrático nada tinha, seus presidentes antagonizavam o slogan do clube e a alternância no poder inexistia. Dos anos 40 aos anos 50, somando 10 anos na presidência do clube, ficou Alfredo Inácio Trindade, que foi derrubado por Vicente Matheus assumindo o poder de 1959 até 1961 e dando inicio a uma era de golpe e golpe do golpe. Vicente Matheus também é derrubado do poder por Wadih Helu que perdura por 10 anos na presidência de 1961 até 1971, sofrendo uma derrubada do próprio Vicente Matheus que reassume o clube e tem um novo período no comando de 1972 até 1981 quando ele não podia mais se reeleger. Porém Vicente tenta uma espécie de golpe branco, lançando-se como vice na chapa de Waldemar Pires, que o próprio escolhe para que possa continuar mandando no clube. Waldemar Pires, que era para ser uma espécie de rainha da Inglaterra corinthiana, não aceita ser um fantoche de Vicente Matheus e como as coisas não iam bem no clube, nem dentro e nem fora das 4 linhas, pois o Corinthians seria rebaixado de modulo no campeonato brasileiro de 1981, Vicente Matheus se afasta do poder, Waldemar Pires junta-se a Orlando Monteiro Alves que chama seu filho Adilson Monteiro Alves, sociólogo, barbudo (que era simbolo de uma ideologia política de esquerda na época), sem nenhuma experiencia em direção de clubes de futebol e torna-se diretor do Corinthians, dando inicio ao movimento que a viria a ser chamado de Democracia Corinthiana.

Paralelo a todo esse turbilhão que vivia o Corinthians e o Brasil, a torcida corinthiana fez valer o mantra do clube paulista, em 1º de julho de 1969 foi fundada a famosa torcida organizada do clube, a Gaviões da Fiel, sua fundação tinha o intuito de combater as duas ditaduras. Um dos mais famosos gritos de torcida tem como letra; “Contra todo ditador que no Timão quiser mandar, os Gaviões nasceram pra poder reivindicar…”

O Corinthians tentava mudar as coisas internamente, Adilson Monteiro Alves em apresentação aos jogadores junto dos novos comandantes do clube, dentro do vestiário do Parque São Jorge (Sede do Clube na época), fala a seguinte frase: “Acho que futebol não é desse jeito, mas eu não sei como faz e gostaria que a gente descobri-se juntos uma maneira de viver futebol e participar da sociedade, do momento que o país esta vivendo”, uma reunião que deveria durar minutos, durou horas. Adilson, junto dos personagens que calçavam chuteiras; Sócrates, o principal líder da equipe dentro e fora das quatro linhas, que era uma progressista; Casagrandre, um jovem libertário e Wladimir, um negro, com boa capacidade de articulação e presidente do sindicato dos atletas, se juntam aos outros atletas e começam a discutir o que deve ser um clube de futebol.

O movimento colocou vários pactos entre jogadores e diretoria, tudo era decidido no voto. As discussões do que deveria ou não acontecer, foi desde a quebra da obrigação para os casados de concentrarem antes das partidas, passando pelas decisões sobre o transporte da equipe, como por exemplo se o ônibus deveria parar para jantar ou até mesmo se faria paradas na estrada para ir ao banheiro, bem como o dia em que a equipe viajaria, chegando ao ápice com discussões sobre qual treinador e jogador deveria ser contratado, algo impensável até nos dias atuais. Além da ideia de voto, o movimento também trouxe uma socialização de todos que faziam parte do clube. Ficou decidido que pessoas que costumeiramente não faziam parte dos ganhos monetários extras pelas vitórias nas partidas ou objetivos alcançados pelo elenco, como por exemplo roupeiro, cozinheira, massagista, começariam a fazer parte do racha, quebrando assim mais um paradigma. Tudo isso acontecendo dentro de um clube envolvido em uma sociedade que estava sendo oprimida por seus comandantes e que estes decidiam tudo, até mesmo e principalmente sobre os pensamentos que os cidadãos deveriam ter sobre o comando do estado.

A partir de então o clube começou a transcender a estrutura interna. O nome do movimento foi batizado em um debate que ocorreu no TUCA (Teatro da Universidade Católica de São Paulo), que tinha como moderador o jornalista Juca Kfouri e em sua companhia estavam os jogadores Sócrates e Wladimir, o diretor Adilson Monteiro Alves e o responsável pela publicidade do Corinthians na época Washington Olivetto. Em meio a conversa com os jogadores contando ao público o que estava acontecendo, Kfouri parodiando Millôr Fernandes fala que “Se os jogadores continuarem votando até para ir ao banheiro, votando para decidir se o ônibus para no restaurante ou segue pro Parque São Jorge, votando para escolher o treinador, votando para escolher o goleiro, nós vamos acabar caindo em uma democracia, uma democracia corinthiana mas em uma democracia”, nesse momento Olivetto com sua tradicional sagacidade de publicitário, anota o nome de Democracia Corinthiana, e ao final do evento diz a Kfouri que ele havia batizado o movimento.

Com o movimento batizado e a liberação de anúncios nas camisas de futebol no final de 1982, claro que os anúncios deveriam ter o aval dos censuradores, o Corinthians decidiu explorar o espaço que era designado as publicidades, para se manifestar politicamente. As mais famosas estampas utilizadas foram o nome do movimento, Democracia Corinthiana escrita no formado das letras da Coca-Cola e a polemica, bem como censurada logo em seguida, Dia 15 Vote, que tinha o intuito de estimular as pessoas a votarem no que seria a primeira eleição para governadores dos estados desde 1964, votação que aconteceu em 15 de novembro de 1982.

No campo as coisas estavam em ritmo de musica, o Corinthians começa a desfrutar do melhor futebol que poderia, os resultados começaram aparecer. Os jogadores relatam que as partidas começaram a ser o grande momento para eles, antes com a concentração o fim do jogo dava o sentimento de libertação, porém com o fim da concentração e toda liberdade de expressão dentro do ambiente em que viviam, fez com eles voltassem a sentir prazer de desfrutar o futebol. Mas embora Sócrates, o grande representante da democracia corinthiana, tentava dizer em suas declarações que o movimento é que trazia os resultados em campo, e não as vitórias que estavam sustentando o processo, foi importante os jogadores conquistarem os resultados no gramado, pois a cobrança de uma imprensa esportiva conservadora era de uma marcação homem a homem, chegando a colocar o apelido de Anarquia Corinthiana no movimento, pois achavam um absurdo os jogadores decidirem o que iriam fazer depois das partidas e mais absurdo ainda discutirem política, a cada revés no gramado tudo era julgado e manchetes como “Travaglini (treinador da época) promete menos conversa e mais futebol” surgiam. O apoio era pouco, vinha principalmente de duas partes, da Revista Placar, porque era dirigida por Juca Kfouri, de Osmar Santos da radio Globo.

Os êxitos esportivos mais significativos da democracia corinthiana aconteceram em cima do seu rival São Paulo, um time que tinha jogadores tecnicamente melhores que o esquadrão alvinegro e era o time da elite paulista. O Corinthians se torna bicampeão paulista (1982 e 1983) em cima do time do Morumbi. Na final de 1982, os jogadores ilustram como era o ambiente e como este influenciava nos jogos, o Corinthians depois de iniciar ganhando a partida e tomar o gol de empate, sofre uma pressão em campo do São Paulo e durante um escanteio para a equipe são paulina, os jogadores começam a cantar batendo palmas a música tida como hino do movimento, “Andar com fé” de Gilberto Gil, resultado final, Corinthians 3 a 1 em cima do rival e campeão. Em 1983 a final do campeonato paulista ficou marcada não só pelo bicampeonato conquistado pela democracia corinthiana, mas também porque os jogadores carregavam uma faixa ao entrar no gramado com a frase; “Ganhar ou perder, mas sempre com democracia”.

Como toda democracia é necessário ter antagonistas e em 1983 o Corinthians com o aval de todo o grupo contrata o goleiro Emerson Leão, um grande atleta e com excelência na posição que jogava, porém um conservador, personalista e arrogante que acreditava apenas na velha hierarquia do futebol tradicional. A chegada de Leão casou algumas rupturas no grupo e o goleiro acabou ficando apenas 1 ano no Corinthians.

Fora dos gramados, o país gritava por democracia, o rock nacional começou a ganhar força mesmo com a censura (embora já sem o vigor do seu inicio) tentando interferir nas letras das músicas, os jogadores do Corinthians participavam dos shows e andavam em paralelo com os movimentos que queriam a queda da opressão que o estado exercia e a volta da democracia no Brasil. O maior exemplo do envolvimento dos jogadores nesses atos sociais, foi no famoso movimento popular em 1984 chamado Diretas Já, com o slogan “Eu quero votar para Presidente”.

As manifestações das “Diretas Já” tinham como principal alvo o aceite da proposta de emenda parlamentar do deputado Dante de Oliveira, que previa eleições diretas para presidente em 1985 pela câmara dos deputados e pelo senado. O movimento reuniu grandes lideres de diferentes partidos, personalidades politicas como Lula, Fernando Henrique Cardoso, Leonel Brizola, Tancredo Neves e Ulisses Guimarães que discursavam durante os comícios. O primeiro grande comício aconteceu em São Paulo na Praça da Sé com 200 mil pessoas e deu inicio a uma série de outros grandes comícios cada vez aumentando mais o número de pessoas participantes, como no caso do comício da Candelária no Rio de Janeiro que documentos e reportagens trazem que um milhão de pessoas compareceram a manifestação, até culminar no ultimo e maior comício que aconteceu em São Paulo no Vale do Anhangabaú, reunindo mais de um milhão e meio de manifestantes e claro que Sócrates, Casagrande e Wladimir estavam nessa contagem. Sócrates que tinha proposta da Fiorentina da Itália para deixar o Corinthians e o Brasil consequentemente, fez como Dom Pedro I e no meio do comício quando foi chamado para falar deu sua palavra dizendo que “Caso a emenda Dante de Oliveira passe na câmara dos deputados e no senado, eu não vou embora do nosso país!”.

Em 25 de Abril de 1984, dia do encerramento da votação da emenda, houve um grande deslocamento até Congresso Nacional e aqueles que não puderam ir até a capital brasileira ou não conseguiram acompanhar a votação madrugada adentro, foram dormir na esperança de um novo país. Porém no dia seguinte acordaram com uma grande desilusão que se desenvolveu para uma ressaca cívica, o sonho virou pesadelo, a democracia ainda permanecia em coma, a câmara dos deputados rejeitou a emenda. Era preciso 320 votos dos 479 congressistas para que a proposta seguisse para o senado, foram obtidos 298 votos a favor, 65 contra, 3 abstenções e 113 ausências. Os corinthianos sofreram duas vezes, porque além da decepção no âmbito nacional o ídolo e simbolo da democracia corinthiana deixaria o clube rumo a Itália em maio de 1984. O fim da democracia corinthiana foi realmente consumado em 2 de dezembro de 1984 com a derrota de Adilson Monteiro Alves para Roberto Pasqua, que era totalmente opositor ao que estava acontecendo no clube e um conservador, voltando com todos os velhos costumes no clube. O Brasil teve que esperar até 15 de novembro de 1989 para poder votar para presidente, porém por incrível que possa parecer elegeu em 2018, trinta e três anos depois, um adorador de torturador, que no golpe parlamentar de 2016 contra a primeira mulher eleita presidenta do Brasil Dilma Rousseff dedicou seu voto a favor do impeachment ao torturador da mesma, que na época lutava contra a ditadura brasileira, o Coronel Carlos Brilhante Ustra.

A Democracia Corinthiana não durou apenas dois anos, ela perdura até hoje sendo objeto de estudo dentro e fora do país devido a sua influencia em toda a sociedade na época. Talvez hoje seria impossível um movimento político no futebol, haja vista os interesses os lideres brasileiros que calçam chuteiras, os grandes nomes nem identificação com o país tem, pois vestem a camisa de clubes estrangeiros e os que estão aqui fazem questão muitas vezes de apoiar o contraditório. Nas ultimas eleições, os jogadores que se posicionaram politicamente, inclusive o capitão da própria seleção brasileira na época foram ao encontro apenas do atual presidente que como citado no paragrafo anterior é admirador da ditadura e de suas torturas. Fica para nós a reflexão de formação tanto para sociedade quanto na formação de jogadores, não para que pensem da forma que queremos, mas para que sua formação antes de atleta seja de cidadão.

Os Campeões Estavam No Gramado: O Tricampeonato Mundial da Seleção Brasileira Nos Anos De Chumbo

Esquente o chá amigo leitor e deguste desse texto, que não necessariamente faz referencia a algum acontecimento no dia de hoje ou ontem, mas devido as seleções brasileiras (masculina e feminina) estarem disputando a Copa América e Copa do Mundo, junto com as atitudes e declarações do atual presidente da república federativa do Brasil (que reverencia torturadores), nos faz relembrar de uma época em que o Brasil ganhou seu tricampeontao mundial no México e vivíamos os tenebrosos anos de chumbo com o regime de ditadura militar no país que deixou vários mortos sobre tortura, além de atitudes que atrasaram a formação da sociedade brasileira. Desta forma questionamentos (mesmo essas competições não tendo o mesmo prestígio) como os que aconteciam naquela época são indagados, como por exemplo o sucesso da seleção dará maior força ao atual governo? Ser opositor ao governo significa que devesse torcer contra a seleção?

Em 1970 o Brasil viciava seu sexto ano de regime militar e passava pelo inicio dos anos de chumbo com o General Médici que chegou ao poder em 1969 e foi responsável pelo período maior de repressão, de prisões, torturas e “desaparecimentos”. Também em 1969 tornasse (ainda no perídio de governo Costa e Silva) treinador da seleção brasileira de futebol o ex jogador e treinador João Saldanha, um comunista afiliado ao partidão (Partido Comunista Brasileiro – PCB) e comentarista esportivo na época, com a missão de classificar a seleção para Copa do Mundo no México que aconteceria no ano seguinte. Sua contratação se da pelo então presidente da CBD (Confederação Brasileira de Desportos) João Havelange, como uma forma de acalmar os ânimos, já que Saldanha era um crítico fervoroso da entidade. Com uma certa liberdade para fazer o que achava melhor para equipe brasileira na eliminatórias, a seleção se classifica sem problemas. Porém no intervalo entre o fim das eliminatórias e os amistosos preparatórios para copa é quando assumi o General Médici, e sendo o treinador um denunciador das atrocidades que o regime militar praticava em solo brasileiro durante suas coletivas e excursões pelos países em que passava com a seleção brasileira o mesmo é retirado do cargo meses antes da copa ter início, trocado por Zagallo, o medo era de que João Saldanha como treinador campeão do mundo, divulgasse com mais força os acontecidos por aqui.

Enquanto a seleção se preparava para uma copa fisicamente difícil, devido a altitude no México e a força do futebol jogado pelos europeus, aqui os opositores em sua maioria se preparavam para torcer a favor de todos os países que jogariam a copa, menos um, o Brasil, pois acreditava-se que cada vitória da seleção dava mais força a ditadura. La no México a copa começa e a seleção joga um futebol que encanta a todos. No Brasil, poucos mantém a torcida contra a seleção. Este parágrafo é ilustrado pelo filme O Ano Em Que Meus Pais Saíram De Férias, concebido e dirigido por Cao Hamburguer

A seleção brasileira vence a Tchecoslováquia por 4 a 1 na primeira partida e na sequencia passa pela Inglaterra por 1 a 0 e Romênia 3 a 2 encerrando a primeira fase. Nas quartas de final ganha do Peru por 4 a 2, vence nas semifinais o Uruguai por 3 a 1 e ganha a grande final contra a Itália por 4 a 1, trazendo para o país o tricampeonato mundial de forma invicta.

É verdade que quando os jogadores pousaram no Brasil o General Médici tentou se apossar da vitória. Pousou para fotos, fez discursos “populistas”, mas isso não faz dele o dono do tricampeonato mundial, quando se fala da copa do mundo de 1970 todos lembram de Pelé, Rivelino, Tostão, Gerson, Jairzinho, Carlos Alberto, já do então general, lembrasse dos períodos tenebrosos em que o país viveu sobre seu comando, as prisões, as torturas, os “desaparecimentos”, enfim do terror colocado no país.

Os governos que estão no poder sempre tentaram se fortalecer em vitórias conquistadas desportivamente, o sociólogo Fernando Henrique Cardoso (FHC), presidente no ano do pentacampeonato conquistado na copa do mundo de 2002 na Coréia e no Japão, não abriu mão da comemoração no Palácio do Planalto mesmo os jogadores vindo de longa viagem. Porém, o sucesso e fracasso esportivo não estão interligados ao fortalecimento do governante, exemplo disso é que no mesmo ano de 2002 FHC não conseguiu eleger “seu” candidato e Lula ganha as eleições presidenciais, assim como as derrotas em 2006 na copa da Alemanha não fizeram Lula deixar de se reeleger, bem como dar continuidade aos governos petistas com Dilma se elegendo em 2010 depois do Brasil ser eliminado na copa da Africa do Sul e se reeleger em 2014, mesmo depois do vergonhoso 7 a 1 em copa disputada no próprio país.

A seleção brasileira, o hino nacional, a bandeira brasileira estão relacionadas a nós mesmo e não podemos deixar que governos por mais cinzento que seja, como o atual, nos usurpe isso.

Para lembrança de todos, os verdadeiros campeões estavam no gramado e são eles;

1- Felix; 4- Carlos Alberto, 2- Brito, 3- Piazza, 16- Everaldo; 5- Clodoaldo, 8- Gerson; 7- Jairzinho, 11- Rivelino, 10- Pelé, 9- Tostão. Reservas; 12- Aldo, 22- Leão, 17- Joel Camargo, 6- Marco Antonio, 14- Baldochi, 15- Fontana, 21- Zé Maria, 13- Roberto Miranda, 20- Dadá Maravilha, 18- Paulo César, 19- Edu.

A Carta de Jô

Crédito Imagem: Márcio Scavone

Jô Soares dispensa apresentações e depois de ter lançado o segundo volume de sua autobiografia O Livro De Jô, escreveu uma carta para o então e até aqui presidente da República Federativa do Brasil ou BraZil passando pro inglês, já que o mesmo está entregando aos poucos o país para a terra do Tio Sam.

A carta é uma resposta ou sugestão de pensando para o presidente, depois das declarações dele sobre o nazismo. O Blog exibi A Carta de Jô (retirada da reportagem da Folha de São Paulo,
https://www1.folha.uol.com.br/opiniao/2019/04/carta-aberta-ao-ilmo-sr-presidente-jair-bolsonaro.shtml) a seguir:

J“Caro presidente Jair Bolsonaro. Entendo a reação provocada quando o senhor afirmou que o nazismo era de esquerda. Isso se deve ao fato de que, depois da Primeira Guerra Mundial, vários pequenos grupos se formaram, à direita e à esquerda.

Um desses grupos foi o NSDAP: em alemão, sigla do Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães. Entre seus fundadores originais havia dois irmãos: Otto e Gregor Strasser. Otto era um socialista convicto, queria orientar o movimento do partido à esquerda. Foi expulso e a cabeça posta a prêmio.

Seu irmão Gregor preferiu unir-se ao grupo do Camelô do Apocalipse. Quanto a Otto, que não concordava com essa vertente, nem com as teorias racistas, teve sua cabeça posta a prêmio por Joseph Goebbels pela quantia de US$ 500 mil. Foi obrigado a fugir para o exílio, só conseguindo voltar à Alemanha anos depois do final da guerra. Hitler apressou-se em tirar o ‘social’ da sigla do partido. Mais tarde, Gregor foi eliminado junto com Ernst Röhm, chefe das S.A., na famigerada ‘Noite das Facas Longas’.

Devo lhe confessar que também já fui alvo de chacota, mas por um motivo totalmente diferente: só peço que não deboche muito de mim.

Imagine o senhor que confundi o dinamarquês Søren Aabye Kierkegaard, filósofo, teólogo, poeta, crítico social e autor religioso, e amplamente considerado o primeiro filósofo existencialista, com o filósofo Ludwig Wittgenstein, que, como o senhor está farto de saber, foi um filósofo austríaco, naturalizado britânico e um dos principais autores da virada linguística na filosofia do século 20.

Finalmente, um conselho: não se deixe influenciar por certas palavras. Seguem alguns exemplos:

1. Quando chegar a um prédio e o levarem para o elevador social, entre sem receio. Isso não fará do senhor um trotskista fanático;

2. A expressão ‘no pasarán!’, utilizada por Dolores Ibárruri Gómez, conhecida como ‘La Pasionaria’, não era uma convocação feminista para que as mulheres deixassem de passar as roupas dos seus maridos;

3. ‘Social climber’ não se refere a uma alpinista de esquerda;

4. Rosa Luxemburgo não era assim chamada porque só vendia rosas vermelhas;

5. Picasso: não usou o partido para divulgar seus gigantescos atributos físicos;

6. Quanto à palavra ‘social’, ela consta até no seu partido.

Finalmente, adoraria convidá-lo para assistir ao meu espetáculoo.
 
Foi quando surgiu um dilema impossível de resolver. Claro que eu o colocaria na plateia à direita. Assim, o senhor, à direita, me veria no palco à direita. Só que, do meu lugar no palco, eu seria obrigado a vê-lo sempre à esquerda.

Espero que minha despretensiosa missiva lhe sirva de alguma utilidade.

Convicto de ter feito o melhor possível, subscrevo-me.”

Jô Soares,
Influenciador analógico

O esporte sabe que não existe raça

Fonte: Arquivo/AP Photo

Dois casos de racismo tomaram conta da semana esportiva. No dia 17 de março o atacante brasileiro Serginho do time boliviano Jorge Wilstermann ao ouvir insultos racistas vindas da torcida adversário deixou o campo de jogo em forma de protesto, reportagem sobre o caso no link;
https://esporte.ig.com.br/futebol/internacional/2019-03-19/racismo-brasileiro-bolivia.html

No dia seguinte, o jogador russo Pavel Pogrebnyak disse a imprensa ser ridículo um pessoas de cor na seleção russa, se posicionando referente a convocação do brasileiro Ari pela seleção da Russia, para a disputa dos jogos classificatórios da Euro 2020. Segui link da reportagem;
https://esporte.ig.com.br/futebol/internacional/2019-03-18/brasileiro-naturalizado-russo-e-alvo-de-racismo.html

Ontem 21 de março é considerado o Dia Internacional de Luta contra a Discriminação Racial, data criada pela ONU em memória ao massacre de Sharpeville, ocorrido na África do Sul em 196o (link sobre
http://www.pordentrodaafrica.com/noticias/por-dentro-da-historia-o-massacre-de-sharpeville-durante-o-apartheid ). Diante do contraste dos demonstrativos fica evidente que não se pode abrir mão do debate sobre a discriminação racial, e que este assunto não se trata de algo que ficou no passado e muito menos que se trata de pensamentos ideológicos que só servem para “tumultuar”, o racismo se trata de algo estrutural.

Esperamos que fatos como estes sejam cada vez mais escassos, principalmente quando se fala em esporte, que a cada dia se encarrega de mostrar que não existe raça soberana, exemplos ?! Pelé, Michael Jordan, Usain Bolt, Kobe Briant, Muhammad Ali, Lebron James, Thierry Henry, Daiane dos Santos, Tommie Smith, John Carlos……

Bem Vindo ao Hora do Chá com Bola

Quem disse que esporte, mais precisamente futebol e política não se mistura?! Ou pior não se debate?

                Sinta-se em casa, esquente seu chá e deguste sem moderação dos comentários e opiniões que o Blog fará sobre os acontecimentos do cotidiano no esporte (com mais ênfase no futebol) e política, porque ambos se misturam e devem ser debatidos.